A UNIVERSIDADE QUE NÃO PENSA
Flávio Brayner
Quando vemos ou ouvimos o discurso estridente e obsessivo ao nosso redor, a respeito de ranqueamento, inovação, competitividade, produtividade, gestão, governança, produção, negócios..., denotando e conotando, com uma linguagem nova, a construção de uma outra realidade institucional (mudam-se as palavras para que o sentido que atribuímos às coisas possam também mudar) é porque algo de importante aconteceu e que não se trata simplesmente de “adequar a universidade às exigências dos novos tempos”: trata-se de criar este “novo tempo” e apresentá-lo, finalmente, como resultado de uma evolução natural. Há, pois, uma revolução em curso: a que instalará a distopia do homem-recurso dispensável, a que eliminará do cenário universitário a resistência crítica, uma vez que ciência “objetiva e neutra” não é objeto de debate público! O que está em jogo é a simples eliminação do espaço público-decisório.
O que se esconde (se é que a ideia de que algo se esconde “por trás da realidade” faz algum sentido) nesta libido instrumentalae de uma instituição que gostaria de ser igual a Harvard, ou uma das 25 melhores do mundo até 2027?
Receio que o que se “esconde” aqui é algo como o fazer do mundo algo mensurável, quantificável e ordenado segundo uma mathesis universalis (uma ciência da ordem universal): este foi o delírio utópico da ciência moderna, esta ciência que “descobriu” que Deus escreveu o universo em linguagem matemática (Galileu)! Imaginar que todas as coisas podem ser medidas e quantificadas, e não digo apenas as ordens discretas, mas também o amor, a justiça, o ódio, a alegria, a amizade, o desejo, a revolta, a indignação, a dúvida, o pensamento, o julgamento, o querer e as emoções em geral (e as tentativas atuais de mensurar as chamadas “Competências não cognitivas” –“socioemocionais”- já apontam neste sentido), esta é a “Solução Final” do horizonte tecnocrático. Na nossa Universidade, enquanto os instrumentos para medir essas emoções não chegam, nos satisfazemos – por enquanto- em medir a ...”produtividade acadêmica” (número de patentes, de artigos, de recursos captados, de alunos virtuais, de professores deprimidos, de capítulos escritos, de citações, etc.).
Mas, se o pensar é exatamente aquilo que interrompe o continuum da vida, que nos retira da ordem imediata do mundo, dos automatismos ideológicos das respostas que antecedem às questões, do encadeamento causa-efeito..., para suspender, por um instante, nossas certezas habituais e, com isto, permitir o exercício do julgamento, só possível na presença partilhada ou confrontada com a pluralidade de outros pontos de vista, então, uma Universidade da mensuração e do ranqueamento é uma Universidade que não pensa mais.

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