quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A UNIVERSIDADE QUE NÃO QUEREMOS. REFLEXÕES SOBRE UMA DERROTA DO PENSAMENTO

A UNIVERSIDADE QUE NÃO QUEREMOS. REFLEXÕES SOBRE UMA DERROTA DO PENSAMENTO
Por Flávio Brayner
Professor Titular da UFPE

Flávio Brayner

Fui formado no interior de uma ideia de Universidade que vejo, neste momento, sofrer um processo de grande transformação e caminhando numa direção que, pessoalmente, não tenho interesse em compartilhar. E mesmo sabendo que minha forma de resistência a estes “novos tempos” é insignificante e até mesmo irrisória –a única “arma” de que disponho é minha palavra- gostaria de deixar registrado o meu protesto contra as formas insidiosas ou abertas de construção de uma nova universidade em que nela antevejo o laboratório institucional onde se processa uma silenciosa experiência: a da derrocada do pensamento, a da transformação do homem em uma entidade supérflua e, finalmente, a construção da distopia tecnocrática. 

 A universidade do “como fazer”
Há sinais, neste meu presente universitário, que parecem apontar para futuros que reputo indesejáveis. E o mais indesejável deles –para mim- é a transformação da universidade de um lugar do “como pensar” em um outro, o do “como fazer”.

Retomo, rapidamente, o velho tema weberiano da “razão instrumental” e insisto no fato mais ou menos evidente de que nossa instituição, ao mesmo tempo em que define “fins”, “valores” e “missões”, oferecendo ao incauto um verniz de compromisso social sem convicção e que me cheira, às vezes, como um deboche ao “humanismo”, esses mesmos “fins e valores” (universidade crítica, democrática, pública, de qualidade socialmente referenciada e outros qualificativos de efeito mais retórico que, efetivo. Verdadeiro, para usar a expressão latina, “captatio benevolenciae”), no fundo, tais “fins e valores” são incompatíveis com o escopo geral e profundo onde se assenta as crenças e convicções de boa parte de seus agentes. Não se trata de uma universidade “maquiavélica” (o termo é inadequado, na medida em que Maquiavel nunca foi maquiavélico!), em que os fins justificariam os meios. O problema é mais grave, os meios substituem os fins e aqueles fins de aparência ética elevada são formulados apenas para esconder os meios! De qualquer forma, é sobre a dominação hegemônica da “técnica” e orientada por exigências mercadológicas que está sendo reconstruída a instituição universitária. É por isto que, talvez, aquela velha noção de ‘razão instrumental’ aqui não funcione mais: não se trata de adequar os meios aos fins – dispensando a avaliação moral destes fins tecnicamente alcançáveis: sabe-se, de antemão, que aqueles fins são irrelevantes, pronunciados e anunciados apenas como uma espécie de concessão retórica, mas aqueles agentes estão conscientes de que “crítica”, “democracia” ou “público” não farão mais parte do léxico deste mundo novo que a universidade ajudará a nascer.

Isto pode parecer “conservador”, na medida em que resistir ao “avanço” ou ao “progresso” técnico seria uma atitude reacionária, daquelas que evitam o caminhar da humanidade para futuros radiosos e, afinal, inevitáveis. Aceito, sem grande constrangimento, a acusação de “conservador”, desde que me informem antes em nome de qual “progressivismo” eu estou sendo acusado!

Já estamos, para início de conversa, num campo onde o escopo moral que porventura tenha nos orientado até aqui, aquele fundado numa determinada noção de dever, de desinteresse, de universalidade, de cuidado com o outro, perde seu efeito normativo e entram em cenas valores performáticos e estratégicos, voltados para o sucesso e os resultados em que, entre outras, os homens também são apenas meios (na verdade, “recursos”: recursos humanos!), ignorando os fins que não são mais determinados por nós mesmos (concepção antropológica), mas, pela própria técnica. É o próprio artefato técnico que, doravante, determinará e criará o ambiente em que se darão nossas relações com os outros, com nós mesmos e com o meio em que vivemos. A questão, pois, é simples de ser formulada: como é possível conciliar competitividade, performance, ranqueamento, empreendedorismo e resultados mensuráveis com “universidade solidária, consciente, crítica, democrática, pública e socialmente comprometida”? Receio que estejamos diante da quadratura do círculo! Ou, para não perder o humor, do casamento do pote de ferro com a panela de barro: na hora H, a competitividade bate e a solidariedade, coitada, apanha!


2 comentários:

  1. Excelente avaliação!! A pergunta final é a mesma que continuo a fazer aqui pelas bandas da Bahia. Desconfio que o "como pensar" anda pela UTI e cada vez mais em estado grave. É nefasto, cansativo e muitas vezes sem graça ser professor numa universidade do "como fazer"... Pelo menos para mim que ainda aposto no pensamento crítico. Instigante texto....

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  2. Excelente avaliação!! A pergunta final é a mesma que continuo a fazer aqui pelas bandas da Bahia. Desconfio que o "como pensar" anda pela UTI e cada vez mais em estado grave. É nefasto, cansativo e muitas vezes sem graça ser professor numa universidade do "como fazer"... Pelo menos para mim que ainda aposto no pensamento crítico. Instigante texto....

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