quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

POR UMA UNIVERSIDADE ACESSÍVEL













Maviael Leonardo

Graduado em Pedagogia e Mestrando em Educação pelo CE/UFPE

Muitas pessoas não entendem e não sabem, o quanto é desafiador a inserção e permanência da pessoa com deficiência no Ensino Superior. Adequação dos espaços físicos, recursos pedagógicos e barreiras atitudinais, são barreiras que refletem diretamente na qualidade de vida da pessoa com deficiência. Digo, em específico, ao desempenho e processo de formação profissional ao qual a pessoa com deficiência é submetida dentro desta instituição. Estes fatores, destacados logo acima, se encontram esquecidos diante das necessidades que os estudantes com deficiência necessitam para o seu total desempenho acadêmico. Convém salientar que o termo acessibilidade não se restringe apenas as questões isoladas sobre os direitos das pessoas com deficiência, é algo mais amplo, que está ancorado em uma relação de direitos humanos, onde se entende que a sociedade civil, em toda a sua diversidade cultural, de gênero, religião, etnia, possui o poder de se tornar visível as suas exigências e necessidades junto ao Estado. Neste caso, é relevante tornar visível o quanto esta instituição educacional vem falhando, quando se trata de efetivar os programas de governo que são direcionados a eliminação de toda a forma de inacessibilidade no campus, em específico a questão do direito de ir e vir da pessoa com deficiência neste espaço acadêmico. O que expomos abaixo, é apenas, alguns pontos chaves, que exige um discurso mais amplo, onde as vozes de todos os segmentos da sociedade possam ser contemplada. No entanto, em se tratando desta temática, entendemos que as pessoas com deficiência são as que mais sofrem os impactos desta triste realidade social, por isso a nossa fala é propositalmente restrita a este seguimento no que se expõe nas linhas abaixo.



Adequação dos espaços físicos: Para as pessoas com deficiência transitar livremente pelo campus da UFPE vem sendo um desafio constante, mesmo as novas propostas de calçadas que visam implementar a acessibilidade, mostram projetos nos quais não se levam em consideração onde todos possam transitar sem barreiras arquitetônicas, é o caso por exemplo, dos pisos podo-táctil que não levam a lugar nenhum, isto sem contar com a sucateada e precária estrutura predial em que os edifícios desta instituição vem apresentando. Salas, corredores, bibliotecas, elevadores, banheiros, que mostram o descaso em que esta instituição de ensino superior vem sofrendo. A não sinalização adequada para atender as necessidades das pessoas que são deficientes visuais, que usam cadeira de rodas, muletas, etc, mostram que inexiste uma política educacional eficiente que busque priorizar a permanência destas pessoas neste espaço acadêmico.

Recursos pedagógicos: Dentre os três recursos, este é o que reflete diretamente na formação profissional da pessoa com deficiência. São bibliotecas que não buscam adequar seus espaços físicos para acomodar a todos com respeito e dignidade. Livros sucateados, pessoas muitas vezes sem um preparo profissional para lidar com a diversidade de pessoas que necessitam de atendimento especializado. Um didática voltada em sua maioria a cumprir metas exigidas pelo interesse econômico. Práticas pedagógicas que não busca respeitar as subjetividades das pessoas que frequentam as salas de aula. Pouco interesse em promover pesquisas que busquem entender as questões sociais, políticas, culturais e econômicas que refletem neste segmento da sociedade. A não existência de recursos financeiros destinados a manutenção/apoio acadêmica(o) exclusivamente para as pessoas com deficiência que se encontram em vulnerabilidade socioeconômica. A grande necessidade de ampliação do transporte escolar que atenda não apenas as necessidades interna de ir e vir dos alunos no campus universitário, mas que também priorize aqueles que tendo alguma deficiência não consiga competir com a precária demanda dos transportes públicos em horários específicos. 

Barreiras atitudinais: É de grande necessidade a busca pelo entendimento e esclarecimento em que a pessoa com deficiência pode se tornar pessoa produtiva em sociedade. Os resultados dos movimentos sociais ao redor do mundo, por meio de convenções, tratados internacionais, etc, enfatizam a importância da visibilidade da pessoa com deficiência em todos os espaços da sociedade. A humanidade vem demonstrando por meio da Tecnologia Assistiva que: produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços quando direcionados dentro da perspectiva da interdisciplinaridade, promove a funcionalidade, atividade e participação em sociedade de pessoas com deficiência, proporcionando autonomia, independência e melhor qualidade de vida. Não podemos aceitar que a UFPE ainda esteja tratando com certo descaso este assunto onde vários setores da sociedade civil vem tremulando a bandeira do respeito a diversidade em todas as esferas sociais. É um diálogo necessário que deve nortear todos os espaços nesta academia, que busque priorizar uma formação acadêmica onde as muitas vozes da sociedade não passe por despercebida nas linhas e entre linhas do saber acadêmico. 

Uma Universidade acessível é aquela que abre suas portas a todos os setores da sociedade, sem embargos e barreiras diversas, proporcionando uma ampla e total variedade de interesses, sem restrições de certos grupos sociais, onde todos possam ter voz e igualdade de oportunidades, uma efetiva universidade pública democrática e de direitos.

A UNIVERSIDADE OLIGÁRQUICA


Flávio Brayner

Professor Titular da UFPE

Enquanto o conhecimento for considerado não apenas um valor aristocrático, mas também a instância elementar onde se assenta nossa “emancipação” (a noção comum de que só o conhecimento, em geral oferecido pela educação escolar, liberta), e reservado aos “melhores” (e aqui nós caímos sempre num truísmo: eles são melhores porque conhecem ou conhecem porque são os melhores?), a Universidade terá sempre sérias dificuldades com a democracia. Não insistirei muito sobre a frase de Fernando Savater, filósofo espanhol, sobre esta relação: “_O grande temor da democracia são os ignorantes!”. A questão é saber, em primeiro lugar, quem nomeia os “ignorantes” e, em segundo, o quê eles ignoram e porque esta “ignorância” é supostamente tão danosa para a democracia. 


Para a esquerda antidemocrática, o que os ignorantes ignoram é a determinação social de seu próprio pensamento, crenças ou ações, todos explicáveis pela base social (classe) onde se situam, todos tendo sofrido a ação oftalmológica de uma classe dominante (como se nós não fôssemos também cúmplices das formas veladas e intransparentes de dominação social) que dirige nosso olhar para as sombras do interior da caverna (alienação). Por isso é que os “ignorantes” precisam de “partidos revolucionários”, conscientes e condutores do processo histórico (é a posição do leninismo) que eles, na sua alienação, ignoram. O medo dos ignorantes, neste caso, é o medo de sua “inconsciência”.

Para a direita antidemocrática, a política (o espaço público) é fonte de dissídia, de conflito e de divisão entre os homens. A boa sociedade seria aquela que tivesse abolido a política e entregado aos técnicos a palavra final sobre o social (entendida a técnica como algo acima dos interesses e ideologias sociais e, portanto, portador de um consenso intrínseco). Para estes, os ignorantes são os tecnicamente incompetentes, incapazes de adequar os meios aos fins (que eles também não sabem escolher!). Para este caso, vai se aplicar o preceito seletivo do “Muitos serão chamados, poucos os escolhidos!”, onde pretendem fundar, evangelicamente, o princípio da “Meritocracia”. O medo dos ignorantes, neste caso, é o medo de sua “incompetência”.

Aliás, em seu rigor originário, a palavra Meritocracia deveria significar “governo do (ou pelo) mérito”, mas a etimologia não explica em que contexto o termo e a ideia foram gerados e, sobretudo, que contrabandos semânticos foram introduzidos no seu uso atual.

Em Condorcet ou Le Pelletier de Saint Fargeau (revolucionários franceses preocupados com a origem da escola republicana) a ideia de meritocracia sugeria a ruptura com o Antigo Regime: não seria mais o nascimento, o sobrenome, o estamento que determinaria nem a ocupação dos cargos públicos, nem a representação política, herdados da ordem aristocrática. O mérito pessoal, avaliado pelo talento e pelas qualidades “naturais” de cada um, assentado no princípio do “individualismo” (e não no do pertencimento a uma ordem estamental) marcaria doravante o novo ordenamento republicano: eis o sentido, por exemplo, do concurso público. Mas, se os talentos individuais são distintos e os valores com os quais os julgamos também (“fidelidade” ou “bravura” na ordem feudal; “etiqueta” na ordem cortesã; “virtude” [republicana] na ordem burguesa) seria preciso um instrumento social de correção das desvantagens e deficiências presumivelmente “naturais” de talento: eis a função da escola pública, laica, gratuita e universal após 1789, em que a medida de aferição do mérito se situaria doravante no talento individual (ou em termos modernos, na competência).

A universalidade da escola republicana (expressa em currículo igual, fardamentos iguais - o “uniforme”-, a avaliação ‘cega’ - até hoje, na França, se o aluno quiser, pode, dobrando e colando uma aba da prova, esconder a autoria do exame que só será conhecida no momento da entrega dos resultados-, livros didáticos gratuitos para todos, merenda única, etc.) e no acesso universal à escola, esbarrou, no entanto, no beco sem saída de toda meritocracia: o talento, a vocação ou a competência subjetiva tem um forte componente social (e de classe) e, assim, oferecidas as condições iguais de partida, se o indivíduo fracassa na chegada, a culpa é exclusivamente dele!

Isto faz lembrar os antigos e esquecidos “testes vocacionais”. Depois que se descobriu que crianças pobres tinham “vocação” para ser pedreiro, policial e motorista de ônibus, e filho de rico tinha “vocação” para ser médico, empresário ou engenheiro, constatou-se o óbvio: a vocação (e para nosso caso, o “mérito devido ao talento”) não são atributos unicamente subjetivos ou dependentes de um “esforço individual”. Entre outras, isto significa que aqueles que rezam pela cartilha da meritocracia não suportam o atual sistema de cotas para a Universidade, que cumpre numa sociedade desigual e hierárquica como a nossa, a mesma função que o princípio meritocrático cumpriu na origem do republicanismo. O problema é que na ordem pós-revolucionária, a meritocracia cumpria -como vimos- o papel (ilusório, claro, já que tratava os desiguais pelo mesmo metro!) de oferecer condições de partida semelhantes aos indivíduos. Hoje o discurso meritocrático, esteio ideológico da “produtividade” acadêmica, cumpre o papel inverso: ele restaura hierarquias, qualifica e desqualifica pessoas em função de critérios não substantivos (qual a relevância social de minha pesquisa?), distribui privilégios, seleciona “talentos” e, no horizonte, reabilita uma ordem aristocrática e perversamente tautológica: os que merecem têm, os que têm merecem! Ai dos “sem-mérito”!... 

A história da meritocracia universitária é, assim, aquela de uma curiosa restauração: imaginada para romper com a ordem aristocrática, sua função hoje é restabelecê-la! Nossos meritocratas, no fundo, não conseguem disfarçar suas irresistíveis inclinações antirrepublicanas.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A LUTA EM DEFESA DO HC PÚBLICO CONTINUA.

No dia 06/02 (sexta-feira) houve um ato organizado pelo SINTUFEPE para denunciar as condições de trabalho e falta de materiais no HC, que persistem e até pioraram, depois de mais de um ano de EBSERH.








Como não poderia ser diferente do que vem ocorrendo nos últimos anos, marcamos presença em mais essa atividade política em defesa do hospital e reiteramos nossas posições de denúncia aos elementos da EBSERH e de defesa do caráter público do HC.





Estavam presentes no ato, além de técnico-administrativos que compõem o nosso coletivo, a professora Daniela Ferreira e o nosso pré-candidato a reitor Daniel Rodrigues. 







Perdemos uma batalha mas não desistiremos de trazer de volta o HC para a UFPE de forma democrática e responsável!







Universidade Pública e HC público!!!!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

CONVITE: AGREMIAÇÃO CARNAVALESCA DE SALÃO “O PIANO”

Pianeiros e pianeiras

Estamos convidando a todos os que nos acompanharam ao longo dos últimos dez anos (e os que aderiram depois) para a prévia de nossa AGREMIAÇÃO CARANAVALESCA DE SALÃO “O PIANO”, a se realizar no Mercado da Madalena, na próxima sexta-feira, dia 6 de fevereiro, às 13 horas.

Fundado em 2005, ainda com característica artesanais, nossa Agremiação, após uma reengenharia gestionária, procurou se reposicionar no mercado (escolhendo o Mercado da Madalena), adotando um modelo de governança corporativa, calcado nas expectativas musicais dos nossos clientes e -concluindo que se tratava de um problema de gestão- decidiu estabelecer novas metas, com seus valores e missões, um sistema de monitoramento e avaliação institucional, voltado para a obtenção de resultados, expresso em ranqueamento internacional. Nossa declarada pretensão é a de tornarmo-nos uma das 25 maiores Agremiações carnavalescas do Mercado da Madalena até 2027, e para tanto já estamos contratando um headhunter para captar recursos nos mercados (de Água Fria, da Boa Vista e da Encruzilhada).

Resultados atingidos: estamos posicionados (no Mercado) entre o Bar dos Cornos e um vendedor de camarão, o que já nos mostra o sucesso de nossa iniciativa gestionária; o nível de desafinação aumentou, o que revela o progresso da música atonal entre nós (uma verdadeira quebra de paradigma com a escala cromática!); e o piano ainda é a mesma desgraça do início, o que exprime nosso cuidado com a memória institucional!

Esperamos vocês para uma prévia divertida e com taxa de sucesso garantida!

UM PROJETO DE CIDADE E DE UNIVERSIDADE

Contribuição de mais um dos(as) nossos(as) integrantes, estudante que constrói juntamente com Daniel e Bianca a nossa campanha.

UM PROJETO DE CIDADE E DE UNIVERSIDADE
Gabriel Augusto
Estudante de Geografia da UFPE


Estamos vendo no Mundo todo, e de forma particular no Recife, a implementação de projetos urbanos que se apresentam como capazes de transformar as cidades, “requalificando” os espaços, dando a eles “vida” e inserindo estes espaços na dinâmica da chamada globalização. Mobilizações como as do Movimento Ocupe Estelita já deixam bastante claro que esta é uma qualificação pra alguns, que dá vida aos lugares para as elites eliminando as relações territoriais anteriores e atendendo a dinâmica da globalização totalitária – que Milton Santos chamariaglobalitarismo – que enxerga as cidades apenas na perspectiva dos grandes negócios. Desta forma, a cidade vai sendo modelada colocando o lucro acima da vida dos citadinos.
Sob o mesmo contexto histórico-geográfico - de emergência e consolidação do receituário neoliberal - as universidades vão se tornando cada vez mais céticas em relação aos horizontes utópicos e priorizam dar soluções práticas para os problemas imediatos. De certa forma, parecem mesmo crer no fim da história anunciado por Francis Fukuyama. Assim, o que restaria a universidade seria adequar sua metodologia de trabalho, seus laboratórios, suas formas de financiamento de pesquisa e seu próprio espaço físico para garantir a eficiência que dela se espera.
Esta universidade pública de interesse privado passa a produzir seu próprio espaço de forma semelhante a que se produz nos chamados processos de “requalificação”. Assim, temos nos campus em todo o Brasil a privatização dos espaços públicos e seu uso por poucos, o carro como mecanismo principal de transporte reduzindo o espaço a vias e estacionamentos, a eliminação de áreas de convivência e como consequência deste esvaziamento de pessoas circulando, o aumento da insegurança pelo qual se supõe justificável a militarização de nossos espaços.
Estudar na Geografia nos “proporciona” ter aulas em um dos NIATE (Núcleo Intergrado de Atividades de Ensino). Estes prédios dizem muito sobre a concepção de espaço que se implementa na UFPE. Um dos grandes orgulhos da gestão atual, o NIATE separa as áreas de ensino das áreas de pesquisa, afastando o graduando do convívio com os laboratórios. O tripé ensino-pesquisa-extensão passa a ser dissociado até do ponto de vista geográfico! Além disso, no NIATE, pela ausência de espaços de convívio – não é de mesas e cadeiras que falamos aqui - os estudantes de Geografia dos diferentes períodos já não têm mais se reconhecido. É do ônibus para a sala de aula, da sala de aula para o ônibus e nesta rotina a UFPE vai perdendo o sentido de espaço público, isto é, o espaço do encontro dos diferentes, onde a contradição se instala.
A paisagem diz muito sobre a universidade que estamos construindo e que queremos construir. A UFPE deve se colocar nesta discussão em consonância com os debates que têm sido historicamente levantados pelos movimentos sociais. É possível pensar o passe-livre na UFPE e um sistema de transporte para além do intervalo de 30 minutos do circular. No momento em que ganha força o debate sobre a desmilitarização das polícias, a resposta da UFPE para a insegurança que atinge especialmente mulheres e LGBTs é trazer armas e militares para os campus? Isto me cheira mais uma vez a “fim da história”.
É preciso garantir que as áreas de ensino e pesquisa estejam indissociadas do ponto de vista pedagógico e também geográfico. Fazer da UFPE um lugar de encontro, recuperando a noção de espaço público. Uma UFPE sem catracas é possível e é o que desejamos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A UNIVERSIDADE REAL

A Universidade Real*
Por Daniel Rodrigues
Diretor e professor do Centro de Educação da UFPE




Nos últimos meses, uma série de pulbicações do JC louvam conquistas e programas que vêm acontecendo na UFPE, o que muito nos alegra. No entanto, pertencendo a uma instituição que produz ciência e consequentemente análise crítica dos fatos, devemos avaliá-los concretamente.

A UFPE passou por momentos difíceis em 2014. Os recursos previstos no seu orçamento foram liberados a conta gotas pelo MEC e com significativos cortes. Bolsas atrasadas, fornecedores sem receber, verbas bloqueadas, interrupção nos serviços. Há uma crise nas universidades e este quadro, além de pouco conhecido, termina por esconder certa concepção que aposta e trabalha na falência do setor público para encontrar, na iniciativa privada, a fórmula capaz de resolver seus males: vimos isto recentemente na implementação da EBSERH (um empresa pública federal de direito privado regida pela Lei das Sociedades Anônimas). Há um modus operandi que, de início, suprime recursos, sucateia e, pouco depois, aparecem os recursos (públicos, por sinal!), sobre o controle da empresa. Tais aparentes melhorias feitas na estrutura tem uma conta perigosa a pagar: ela implementa uma política de esvaziamento do papel do servidor lotado no hospital, acaba com as garantias do Regime Jurídico Único, e passa os recursos humanos, a capacidade e o conhecimento acumulado em várias décadas em uma instituição, para as mãos da EBSERH. Esse movimento não é uma situação específica ou, simplesmente, gerencial dos hospitais: ele está embebido da desresponsabilização do Estado com as questões sociais, conhecida como política de Estado “mínimo”, que visa, em última instância, propiciar ganhos privados, utilizando-se de setores vitais da sociedade como a saúde, a educação, a previdência. 

Nessa configuração brasileira de uma universidade pública com práticas organizativas privatizantes, o presidente da CAPES, órgão de fomento à pesquisa ligado ao MEC, atacou os concursos públicos e a carreira docente, defendendo a contratação fora do Regime Jurídico Único para professores visitantes e docentes. Nesta direção, é fundamental compreender que o concurso público e a preservação pública da carreira e sua permanência são um elemento estratégico para a liberdade de pensamento, artística, científica, pedagógica que deve ser construída autonomamente na universidade. A lógica pública, se bem cuidada, torna-se um alicerce na formação e organização democrática da universidade e uma contribuição à formação de cidadãos atuantes e comprometidos socialmente. O ideário do financiamento, da organização e consequentemente da formação está eivada de exclusões na produção e apropriação científica com sérias consequências sócias. Colocar a competição como estratégia termina por alimentar diferenças e desigualdades entre os pares, entre cursos, entre áreas de conhecimento. Todos esses programas precisam ser avaliados criticamente, o que significa desenvolver o compromisso com a sociedade que requer respostas não imediatistas.

Entender as dificuldades reais da falta de recursos e de sua utilização autônoma oferece melhores condições de analisar as conquistas sem dourarmos as dificuldades reais. É necessário, isto sim, construir uma universidade que seja pública, forte, crítica, que atenda as demandas de conhecimento e formação da maioria da população com base na universidade real.

*Texto publicado no publicado no Jornal do Commercio em 29/01/15.

A UNIVERSIDADE UNIDIMENSIONAL

A Universidade unidimensional
Por Flávio Brayner
Professor Titular da UFPE





Para entender o curioso percurso de uma instituição que começou sob os auspícios da Igreja medieval (fundar filosoficamente a racionalidade da fé), libertou-se dela através da crítica iluminista das agências normativas e tradicionais da autoridade intelectual, para oferecer à sociedade o distanciamento necessário para que ela pudesse digerir seus próprios preconceitos, refletir sobre sua própria forma de se representar, propor projetos (formar elites, lastrear a identidade nacional, construir um passado, preparar profissionais para o mercado, ou inovar os meios de relação com a natureza, etc.) e que, finalmente, retornou ao seu ponto de partida aceitando a dogmática vassalagem aos desígnios do mercado e do pragmatismo antitranscendental (quero dizer com isto, sua incapacidade de imaginar outros modos possíveis de pensar, agir e viver), um percurso, como podemos constatar, que vai de um dogmatismo a outro, passando por um longo atalho “crítico”, para entender este curioso percurso, retomo, lanço mão de uma velha... tradição!

Trata-se de uma tradição cara ao Romantismo alemão, que fazia uma distinção entre Civilização (Zivilisation) e Cultura (Kultur). A primeira correspondia ao mundo material da produção e circulação de mercadorias, onde vivemos o dia a dia de nossas vidas, o mundo, por assim dizer, “fático” e ordinário. Trata-se, para aqueles românticos, de um mundo opressivo, inautêntico e alienante. A Kultur representava o contrário disto: aqui o espírito podia se manifestar através da arte, da imaginação e da utopia. A Kultur funcionava como um contraponto ou antídoto à alienação do mundo ordinário, ora como crítica, ora como esperança de sua modificação. Enquanto houvesse esta distância entre um e outro, estaria preservado o potencial crítico da sociedade. Herbert Marcuse, num debate em 1937, chegou mesmo a imaginar que numa sociedade que tivesse feito uma revolução social bem sucedida, onde os homens não precisassem mais da válvula de escape da imaginação e da esperança, nós não teríamos mais necessidade da arte! Alguns anos depois ele voltou atrás no que tinha dito: precisávamos, sim, da arte não apenas porque não havíamos realizado nenhuma revolução bem sucedida, mas porque a reserva utópica que a arte representava, a possibilidade de crítica e de distância do mundo fático tinham sido absorvidas pelo mercado. Ou, em outras palavras: a separação entre Kultur e Zivilisation não existia mais (Marcuse chamou isto de “unidimensionalidade” da sociedade). A utopia, a esperança, a imaginação tinham sido amplamente absorvidas pelo mercado. Isto significava que o poder da crítica sobre os aspectos desumanos e “inautênticos” de nossa vida diária, a conservação de nossa capacidade de pensar (que exige aquele distanciamento: quando pensamos, nos distanciamos do mundo sensível), uma das reservas utópicas da sociedade, não passavam agora de simples mercadoria, como qualquer outra, feita para ser consumida e imediatamente substituída pela crítica seguinte, ao gosto do freguês e das modas intelectuais.

Quando um diretor de Centro desta Universidade afirma que ao tríptico “Ensino, Pesquisa e Extensão” deve ser acrescentado um quarto -“Negócios”- é porque aquela ideia de uma Universidade como um lugar, ao mesmo tempo, perto e distante da vida ordinária (perto porque é dela, desta vida, que retira sua matéria reflexiva; distante, porque pensar e teorizar implicam distanciamento) se deixa invadir e colonizar pelo ambiente de negócios é porque a distância necessária para se “refletir sobre o quê nos acontece” (H. Arendt) foi suprimida. O que reafirma a condição indesejável, a meus olhos, de uma Universidade que não pensa, uma Universidade unidimensional para ser mais exato. E mesmo que supostamente ela “pensasse”, este pensar teria perdido seu predicado essencial: a autonomia.

Uma universidade que “pensa” através, a partir, em função do ou para o mercado, tomado como única realidade relevante, é uma universidade que chegou ao fim, é uma outra instituição para a qual eu, pessoalmente, não tenho muito interesse em contribuir e, aliás, não fui contratado para fazer “negócios” e não tenho vocação para caixeiro-viajante ou balconista...

Simples questão de “vocação”!