Contribuição de mais um dos(as) nossos(as) integrantes, estudante que constrói juntamente com Daniel e Bianca a nossa campanha.
UM PROJETO DE CIDADE E DE UNIVERSIDADE
Gabriel Augusto
Estudante de Geografia da UFPE
Estamos vendo no Mundo todo, e de forma particular no Recife, a implementação de projetos urbanos que se apresentam como capazes de transformar as cidades, “requalificando” os espaços, dando a eles “vida” e inserindo estes espaços na dinâmica da chamada globalização. Mobilizações como as do Movimento Ocupe Estelita já deixam bastante claro que esta é uma qualificação pra alguns, que dá vida aos lugares para as elites eliminando as relações territoriais anteriores e atendendo a dinâmica da globalização totalitária – que Milton Santos chamariaglobalitarismo – que enxerga as cidades apenas na perspectiva dos grandes negócios. Desta forma, a cidade vai sendo modelada colocando o lucro acima da vida dos citadinos.
Sob o mesmo contexto histórico-geográfico - de emergência e consolidação do receituário neoliberal - as universidades vão se tornando cada vez mais céticas em relação aos horizontes utópicos e priorizam dar soluções práticas para os problemas imediatos. De certa forma, parecem mesmo crer no fim da história anunciado por Francis Fukuyama. Assim, o que restaria a universidade seria adequar sua metodologia de trabalho, seus laboratórios, suas formas de financiamento de pesquisa e seu próprio espaço físico para garantir a eficiência que dela se espera.
Esta universidade pública de interesse privado passa a produzir seu próprio espaço de forma semelhante a que se produz nos chamados processos de “requalificação”. Assim, temos nos campus em todo o Brasil a privatização dos espaços públicos e seu uso por poucos, o carro como mecanismo principal de transporte reduzindo o espaço a vias e estacionamentos, a eliminação de áreas de convivência e como consequência deste esvaziamento de pessoas circulando, o aumento da insegurança pelo qual se supõe justificável a militarização de nossos espaços.
Estudar na Geografia nos “proporciona” ter aulas em um dos NIATE (Núcleo Intergrado de Atividades de Ensino). Estes prédios dizem muito sobre a concepção de espaço que se implementa na UFPE. Um dos grandes orgulhos da gestão atual, o NIATE separa as áreas de ensino das áreas de pesquisa, afastando o graduando do convívio com os laboratórios. O tripé ensino-pesquisa-extensão passa a ser dissociado até do ponto de vista geográfico! Além disso, no NIATE, pela ausência de espaços de convívio – não é de mesas e cadeiras que falamos aqui - os estudantes de Geografia dos diferentes períodos já não têm mais se reconhecido. É do ônibus para a sala de aula, da sala de aula para o ônibus e nesta rotina a UFPE vai perdendo o sentido de espaço público, isto é, o espaço do encontro dos diferentes, onde a contradição se instala.
A paisagem diz muito sobre a universidade que estamos construindo e que queremos construir. A UFPE deve se colocar nesta discussão em consonância com os debates que têm sido historicamente levantados pelos movimentos sociais. É possível pensar o passe-livre na UFPE e um sistema de transporte para além do intervalo de 30 minutos do circular. No momento em que ganha força o debate sobre a desmilitarização das polícias, a resposta da UFPE para a insegurança que atinge especialmente mulheres e LGBTs é trazer armas e militares para os campus? Isto me cheira mais uma vez a “fim da história”.
É preciso garantir que as áreas de ensino e pesquisa estejam indissociadas do ponto de vista pedagógico e também geográfico. Fazer da UFPE um lugar de encontro, recuperando a noção de espaço público. Uma UFPE sem catracas é possível e é o que desejamos.

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