A Universidade unidimensional
Por Flávio Brayner
Professor Titular da UFPE

Para entender o curioso percurso de uma instituição que começou sob os auspícios da Igreja medieval (fundar filosoficamente a racionalidade da fé), libertou-se dela através da crítica iluminista das agências normativas e tradicionais da autoridade intelectual, para oferecer à sociedade o distanciamento necessário para que ela pudesse digerir seus próprios preconceitos, refletir sobre sua própria forma de se representar, propor projetos (formar elites, lastrear a identidade nacional, construir um passado, preparar profissionais para o mercado, ou inovar os meios de relação com a natureza, etc.) e que, finalmente, retornou ao seu ponto de partida aceitando a dogmática vassalagem aos desígnios do mercado e do pragmatismo antitranscendental (quero dizer com isto, sua incapacidade de imaginar outros modos possíveis de pensar, agir e viver), um percurso, como podemos constatar, que vai de um dogmatismo a outro, passando por um longo atalho “crítico”, para entender este curioso percurso, retomo, lanço mão de uma velha... tradição!
Trata-se de uma tradição cara ao Romantismo alemão, que fazia uma distinção entre Civilização (Zivilisation) e Cultura (Kultur). A primeira correspondia ao mundo material da produção e circulação de mercadorias, onde vivemos o dia a dia de nossas vidas, o mundo, por assim dizer, “fático” e ordinário. Trata-se, para aqueles românticos, de um mundo opressivo, inautêntico e alienante. A Kultur representava o contrário disto: aqui o espírito podia se manifestar através da arte, da imaginação e da utopia. A Kultur funcionava como um contraponto ou antídoto à alienação do mundo ordinário, ora como crítica, ora como esperança de sua modificação. Enquanto houvesse esta distância entre um e outro, estaria preservado o potencial crítico da sociedade. Herbert Marcuse, num debate em 1937, chegou mesmo a imaginar que numa sociedade que tivesse feito uma revolução social bem sucedida, onde os homens não precisassem mais da válvula de escape da imaginação e da esperança, nós não teríamos mais necessidade da arte! Alguns anos depois ele voltou atrás no que tinha dito: precisávamos, sim, da arte não apenas porque não havíamos realizado nenhuma revolução bem sucedida, mas porque a reserva utópica que a arte representava, a possibilidade de crítica e de distância do mundo fático tinham sido absorvidas pelo mercado. Ou, em outras palavras: a separação entre Kultur e Zivilisation não existia mais (Marcuse chamou isto de “unidimensionalidade” da sociedade). A utopia, a esperança, a imaginação tinham sido amplamente absorvidas pelo mercado. Isto significava que o poder da crítica sobre os aspectos desumanos e “inautênticos” de nossa vida diária, a conservação de nossa capacidade de pensar (que exige aquele distanciamento: quando pensamos, nos distanciamos do mundo sensível), uma das reservas utópicas da sociedade, não passavam agora de simples mercadoria, como qualquer outra, feita para ser consumida e imediatamente substituída pela crítica seguinte, ao gosto do freguês e das modas intelectuais.
Quando um diretor de Centro desta Universidade afirma que ao tríptico “Ensino, Pesquisa e Extensão” deve ser acrescentado um quarto -“Negócios”- é porque aquela ideia de uma Universidade como um lugar, ao mesmo tempo, perto e distante da vida ordinária (perto porque é dela, desta vida, que retira sua matéria reflexiva; distante, porque pensar e teorizar implicam distanciamento) se deixa invadir e colonizar pelo ambiente de negócios é porque a distância necessária para se “refletir sobre o quê nos acontece” (H. Arendt) foi suprimida. O que reafirma a condição indesejável, a meus olhos, de uma Universidade que não pensa, uma Universidade unidimensional para ser mais exato. E mesmo que supostamente ela “pensasse”, este pensar teria perdido seu predicado essencial: a autonomia.
Uma universidade que “pensa” através, a partir, em função do ou para o mercado, tomado como única realidade relevante, é uma universidade que chegou ao fim, é uma outra instituição para a qual eu, pessoalmente, não tenho muito interesse em contribuir e, aliás, não fui contratado para fazer “negócios” e não tenho vocação para caixeiro-viajante ou balconista...
Simples questão de “vocação”!