terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A LUTA EM DEFESA DO HC PÚBLICO CONTINUA.

No dia 06/02 (sexta-feira) houve um ato organizado pelo SINTUFEPE para denunciar as condições de trabalho e falta de materiais no HC, que persistem e até pioraram, depois de mais de um ano de EBSERH.








Como não poderia ser diferente do que vem ocorrendo nos últimos anos, marcamos presença em mais essa atividade política em defesa do hospital e reiteramos nossas posições de denúncia aos elementos da EBSERH e de defesa do caráter público do HC.





Estavam presentes no ato, além de técnico-administrativos que compõem o nosso coletivo, a professora Daniela Ferreira e o nosso pré-candidato a reitor Daniel Rodrigues. 







Perdemos uma batalha mas não desistiremos de trazer de volta o HC para a UFPE de forma democrática e responsável!







Universidade Pública e HC público!!!!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

CONVITE: AGREMIAÇÃO CARNAVALESCA DE SALÃO “O PIANO”

Pianeiros e pianeiras

Estamos convidando a todos os que nos acompanharam ao longo dos últimos dez anos (e os que aderiram depois) para a prévia de nossa AGREMIAÇÃO CARANAVALESCA DE SALÃO “O PIANO”, a se realizar no Mercado da Madalena, na próxima sexta-feira, dia 6 de fevereiro, às 13 horas.

Fundado em 2005, ainda com característica artesanais, nossa Agremiação, após uma reengenharia gestionária, procurou se reposicionar no mercado (escolhendo o Mercado da Madalena), adotando um modelo de governança corporativa, calcado nas expectativas musicais dos nossos clientes e -concluindo que se tratava de um problema de gestão- decidiu estabelecer novas metas, com seus valores e missões, um sistema de monitoramento e avaliação institucional, voltado para a obtenção de resultados, expresso em ranqueamento internacional. Nossa declarada pretensão é a de tornarmo-nos uma das 25 maiores Agremiações carnavalescas do Mercado da Madalena até 2027, e para tanto já estamos contratando um headhunter para captar recursos nos mercados (de Água Fria, da Boa Vista e da Encruzilhada).

Resultados atingidos: estamos posicionados (no Mercado) entre o Bar dos Cornos e um vendedor de camarão, o que já nos mostra o sucesso de nossa iniciativa gestionária; o nível de desafinação aumentou, o que revela o progresso da música atonal entre nós (uma verdadeira quebra de paradigma com a escala cromática!); e o piano ainda é a mesma desgraça do início, o que exprime nosso cuidado com a memória institucional!

Esperamos vocês para uma prévia divertida e com taxa de sucesso garantida!

UM PROJETO DE CIDADE E DE UNIVERSIDADE

Contribuição de mais um dos(as) nossos(as) integrantes, estudante que constrói juntamente com Daniel e Bianca a nossa campanha.

UM PROJETO DE CIDADE E DE UNIVERSIDADE
Gabriel Augusto
Estudante de Geografia da UFPE


Estamos vendo no Mundo todo, e de forma particular no Recife, a implementação de projetos urbanos que se apresentam como capazes de transformar as cidades, “requalificando” os espaços, dando a eles “vida” e inserindo estes espaços na dinâmica da chamada globalização. Mobilizações como as do Movimento Ocupe Estelita já deixam bastante claro que esta é uma qualificação pra alguns, que dá vida aos lugares para as elites eliminando as relações territoriais anteriores e atendendo a dinâmica da globalização totalitária – que Milton Santos chamariaglobalitarismo – que enxerga as cidades apenas na perspectiva dos grandes negócios. Desta forma, a cidade vai sendo modelada colocando o lucro acima da vida dos citadinos.
Sob o mesmo contexto histórico-geográfico - de emergência e consolidação do receituário neoliberal - as universidades vão se tornando cada vez mais céticas em relação aos horizontes utópicos e priorizam dar soluções práticas para os problemas imediatos. De certa forma, parecem mesmo crer no fim da história anunciado por Francis Fukuyama. Assim, o que restaria a universidade seria adequar sua metodologia de trabalho, seus laboratórios, suas formas de financiamento de pesquisa e seu próprio espaço físico para garantir a eficiência que dela se espera.
Esta universidade pública de interesse privado passa a produzir seu próprio espaço de forma semelhante a que se produz nos chamados processos de “requalificação”. Assim, temos nos campus em todo o Brasil a privatização dos espaços públicos e seu uso por poucos, o carro como mecanismo principal de transporte reduzindo o espaço a vias e estacionamentos, a eliminação de áreas de convivência e como consequência deste esvaziamento de pessoas circulando, o aumento da insegurança pelo qual se supõe justificável a militarização de nossos espaços.
Estudar na Geografia nos “proporciona” ter aulas em um dos NIATE (Núcleo Intergrado de Atividades de Ensino). Estes prédios dizem muito sobre a concepção de espaço que se implementa na UFPE. Um dos grandes orgulhos da gestão atual, o NIATE separa as áreas de ensino das áreas de pesquisa, afastando o graduando do convívio com os laboratórios. O tripé ensino-pesquisa-extensão passa a ser dissociado até do ponto de vista geográfico! Além disso, no NIATE, pela ausência de espaços de convívio – não é de mesas e cadeiras que falamos aqui - os estudantes de Geografia dos diferentes períodos já não têm mais se reconhecido. É do ônibus para a sala de aula, da sala de aula para o ônibus e nesta rotina a UFPE vai perdendo o sentido de espaço público, isto é, o espaço do encontro dos diferentes, onde a contradição se instala.
A paisagem diz muito sobre a universidade que estamos construindo e que queremos construir. A UFPE deve se colocar nesta discussão em consonância com os debates que têm sido historicamente levantados pelos movimentos sociais. É possível pensar o passe-livre na UFPE e um sistema de transporte para além do intervalo de 30 minutos do circular. No momento em que ganha força o debate sobre a desmilitarização das polícias, a resposta da UFPE para a insegurança que atinge especialmente mulheres e LGBTs é trazer armas e militares para os campus? Isto me cheira mais uma vez a “fim da história”.
É preciso garantir que as áreas de ensino e pesquisa estejam indissociadas do ponto de vista pedagógico e também geográfico. Fazer da UFPE um lugar de encontro, recuperando a noção de espaço público. Uma UFPE sem catracas é possível e é o que desejamos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A UNIVERSIDADE REAL

A Universidade Real*
Por Daniel Rodrigues
Diretor e professor do Centro de Educação da UFPE




Nos últimos meses, uma série de pulbicações do JC louvam conquistas e programas que vêm acontecendo na UFPE, o que muito nos alegra. No entanto, pertencendo a uma instituição que produz ciência e consequentemente análise crítica dos fatos, devemos avaliá-los concretamente.

A UFPE passou por momentos difíceis em 2014. Os recursos previstos no seu orçamento foram liberados a conta gotas pelo MEC e com significativos cortes. Bolsas atrasadas, fornecedores sem receber, verbas bloqueadas, interrupção nos serviços. Há uma crise nas universidades e este quadro, além de pouco conhecido, termina por esconder certa concepção que aposta e trabalha na falência do setor público para encontrar, na iniciativa privada, a fórmula capaz de resolver seus males: vimos isto recentemente na implementação da EBSERH (um empresa pública federal de direito privado regida pela Lei das Sociedades Anônimas). Há um modus operandi que, de início, suprime recursos, sucateia e, pouco depois, aparecem os recursos (públicos, por sinal!), sobre o controle da empresa. Tais aparentes melhorias feitas na estrutura tem uma conta perigosa a pagar: ela implementa uma política de esvaziamento do papel do servidor lotado no hospital, acaba com as garantias do Regime Jurídico Único, e passa os recursos humanos, a capacidade e o conhecimento acumulado em várias décadas em uma instituição, para as mãos da EBSERH. Esse movimento não é uma situação específica ou, simplesmente, gerencial dos hospitais: ele está embebido da desresponsabilização do Estado com as questões sociais, conhecida como política de Estado “mínimo”, que visa, em última instância, propiciar ganhos privados, utilizando-se de setores vitais da sociedade como a saúde, a educação, a previdência. 

Nessa configuração brasileira de uma universidade pública com práticas organizativas privatizantes, o presidente da CAPES, órgão de fomento à pesquisa ligado ao MEC, atacou os concursos públicos e a carreira docente, defendendo a contratação fora do Regime Jurídico Único para professores visitantes e docentes. Nesta direção, é fundamental compreender que o concurso público e a preservação pública da carreira e sua permanência são um elemento estratégico para a liberdade de pensamento, artística, científica, pedagógica que deve ser construída autonomamente na universidade. A lógica pública, se bem cuidada, torna-se um alicerce na formação e organização democrática da universidade e uma contribuição à formação de cidadãos atuantes e comprometidos socialmente. O ideário do financiamento, da organização e consequentemente da formação está eivada de exclusões na produção e apropriação científica com sérias consequências sócias. Colocar a competição como estratégia termina por alimentar diferenças e desigualdades entre os pares, entre cursos, entre áreas de conhecimento. Todos esses programas precisam ser avaliados criticamente, o que significa desenvolver o compromisso com a sociedade que requer respostas não imediatistas.

Entender as dificuldades reais da falta de recursos e de sua utilização autônoma oferece melhores condições de analisar as conquistas sem dourarmos as dificuldades reais. É necessário, isto sim, construir uma universidade que seja pública, forte, crítica, que atenda as demandas de conhecimento e formação da maioria da população com base na universidade real.

*Texto publicado no publicado no Jornal do Commercio em 29/01/15.

A UNIVERSIDADE UNIDIMENSIONAL

A Universidade unidimensional
Por Flávio Brayner
Professor Titular da UFPE





Para entender o curioso percurso de uma instituição que começou sob os auspícios da Igreja medieval (fundar filosoficamente a racionalidade da fé), libertou-se dela através da crítica iluminista das agências normativas e tradicionais da autoridade intelectual, para oferecer à sociedade o distanciamento necessário para que ela pudesse digerir seus próprios preconceitos, refletir sobre sua própria forma de se representar, propor projetos (formar elites, lastrear a identidade nacional, construir um passado, preparar profissionais para o mercado, ou inovar os meios de relação com a natureza, etc.) e que, finalmente, retornou ao seu ponto de partida aceitando a dogmática vassalagem aos desígnios do mercado e do pragmatismo antitranscendental (quero dizer com isto, sua incapacidade de imaginar outros modos possíveis de pensar, agir e viver), um percurso, como podemos constatar, que vai de um dogmatismo a outro, passando por um longo atalho “crítico”, para entender este curioso percurso, retomo, lanço mão de uma velha... tradição!

Trata-se de uma tradição cara ao Romantismo alemão, que fazia uma distinção entre Civilização (Zivilisation) e Cultura (Kultur). A primeira correspondia ao mundo material da produção e circulação de mercadorias, onde vivemos o dia a dia de nossas vidas, o mundo, por assim dizer, “fático” e ordinário. Trata-se, para aqueles românticos, de um mundo opressivo, inautêntico e alienante. A Kultur representava o contrário disto: aqui o espírito podia se manifestar através da arte, da imaginação e da utopia. A Kultur funcionava como um contraponto ou antídoto à alienação do mundo ordinário, ora como crítica, ora como esperança de sua modificação. Enquanto houvesse esta distância entre um e outro, estaria preservado o potencial crítico da sociedade. Herbert Marcuse, num debate em 1937, chegou mesmo a imaginar que numa sociedade que tivesse feito uma revolução social bem sucedida, onde os homens não precisassem mais da válvula de escape da imaginação e da esperança, nós não teríamos mais necessidade da arte! Alguns anos depois ele voltou atrás no que tinha dito: precisávamos, sim, da arte não apenas porque não havíamos realizado nenhuma revolução bem sucedida, mas porque a reserva utópica que a arte representava, a possibilidade de crítica e de distância do mundo fático tinham sido absorvidas pelo mercado. Ou, em outras palavras: a separação entre Kultur e Zivilisation não existia mais (Marcuse chamou isto de “unidimensionalidade” da sociedade). A utopia, a esperança, a imaginação tinham sido amplamente absorvidas pelo mercado. Isto significava que o poder da crítica sobre os aspectos desumanos e “inautênticos” de nossa vida diária, a conservação de nossa capacidade de pensar (que exige aquele distanciamento: quando pensamos, nos distanciamos do mundo sensível), uma das reservas utópicas da sociedade, não passavam agora de simples mercadoria, como qualquer outra, feita para ser consumida e imediatamente substituída pela crítica seguinte, ao gosto do freguês e das modas intelectuais.

Quando um diretor de Centro desta Universidade afirma que ao tríptico “Ensino, Pesquisa e Extensão” deve ser acrescentado um quarto -“Negócios”- é porque aquela ideia de uma Universidade como um lugar, ao mesmo tempo, perto e distante da vida ordinária (perto porque é dela, desta vida, que retira sua matéria reflexiva; distante, porque pensar e teorizar implicam distanciamento) se deixa invadir e colonizar pelo ambiente de negócios é porque a distância necessária para se “refletir sobre o quê nos acontece” (H. Arendt) foi suprimida. O que reafirma a condição indesejável, a meus olhos, de uma Universidade que não pensa, uma Universidade unidimensional para ser mais exato. E mesmo que supostamente ela “pensasse”, este pensar teria perdido seu predicado essencial: a autonomia.

Uma universidade que “pensa” através, a partir, em função do ou para o mercado, tomado como única realidade relevante, é uma universidade que chegou ao fim, é uma outra instituição para a qual eu, pessoalmente, não tenho muito interesse em contribuir e, aliás, não fui contratado para fazer “negócios” e não tenho vocação para caixeiro-viajante ou balconista...

Simples questão de “vocação”!

domingo, 25 de janeiro de 2015

A UNIVERSIDADE QUE NÃO PENSA

A UNIVERSIDADE QUE NÃO PENSA
Flávio Brayner
Professor Titular da UFPE

Quando vemos ou ouvimos o discurso estridente e obsessivo ao nosso redor, a respeito de ranqueamento, inovação, competitividade, produtividade, gestão, governança, produção, negócios..., denotando e conotando, com uma linguagem nova, a construção de uma outra realidade institucional (mudam-se as palavras para que o sentido que atribuímos às coisas possam também mudar) é porque algo de importante aconteceu e que não se trata simplesmente de “adequar a universidade às exigências dos novos tempos”: trata-se de criar este “novo tempo” e apresentá-lo, finalmente, como resultado de uma evolução natural. Há, pois, uma revolução em curso: a que instalará a distopia do homem-recurso dispensável, a que eliminará do cenário universitário a resistência crítica, uma vez que ciência “objetiva e neutra” não é objeto de debate público! O que está em jogo é a simples eliminação do espaço público-decisório.
O que se esconde (se é que a ideia de que algo se esconde “por trás da realidade” faz algum sentido) nesta libido instrumentalae de uma instituição que gostaria de ser igual a Harvard, ou uma das 25 melhores do mundo até 2027?
Receio que o que se “esconde” aqui é algo como o fazer do mundo algo mensurável, quantificável e ordenado segundo uma mathesis universalis (uma ciência da ordem universal): este foi o delírio utópico da ciência moderna, esta ciência que “descobriu” que Deus escreveu o universo em linguagem matemática (Galileu)! Imaginar que todas as coisas podem ser medidas e quantificadas, e não digo apenas as ordens discretas, mas também o amor, a justiça, o ódio, a alegria, a amizade, o desejo, a revolta, a indignação, a dúvida, o pensamento, o julgamento, o querer e as emoções em geral (e as tentativas atuais de mensurar as chamadas “Competências não cognitivas” –“socioemocionais”- já apontam neste sentido), esta é a “Solução Final” do horizonte tecnocrático. Na nossa Universidade, enquanto os instrumentos para medir essas emoções não chegam, nos satisfazemos – por enquanto- em medir a ...”produtividade acadêmica” (número de patentes, de artigos, de recursos captados, de alunos virtuais, de professores deprimidos, de capítulos escritos, de citações, etc.).
Mas, se o pensar é exatamente aquilo que interrompe o continuum da vida, que nos retira da ordem imediata do mundo, dos automatismos ideológicos das respostas que antecedem às questões, do encadeamento causa-efeito..., para suspender, por um instante, nossas certezas habituais e, com isto, permitir o exercício do julgamento, só possível na presença partilhada ou confrontada com a pluralidade de outros pontos de vista, então, uma Universidade da mensuração e do ranqueamento é uma Universidade que não pensa mais.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A UNIVERSIDADE QUE NÃO QUEREMOS. REFLEXÕES SOBRE UMA DERROTA DO PENSAMENTO

A UNIVERSIDADE QUE NÃO QUEREMOS. REFLEXÕES SOBRE UMA DERROTA DO PENSAMENTO
Por Flávio Brayner
Professor Titular da UFPE

Flávio Brayner

Fui formado no interior de uma ideia de Universidade que vejo, neste momento, sofrer um processo de grande transformação e caminhando numa direção que, pessoalmente, não tenho interesse em compartilhar. E mesmo sabendo que minha forma de resistência a estes “novos tempos” é insignificante e até mesmo irrisória –a única “arma” de que disponho é minha palavra- gostaria de deixar registrado o meu protesto contra as formas insidiosas ou abertas de construção de uma nova universidade em que nela antevejo o laboratório institucional onde se processa uma silenciosa experiência: a da derrocada do pensamento, a da transformação do homem em uma entidade supérflua e, finalmente, a construção da distopia tecnocrática. 

 A universidade do “como fazer”
Há sinais, neste meu presente universitário, que parecem apontar para futuros que reputo indesejáveis. E o mais indesejável deles –para mim- é a transformação da universidade de um lugar do “como pensar” em um outro, o do “como fazer”.

Retomo, rapidamente, o velho tema weberiano da “razão instrumental” e insisto no fato mais ou menos evidente de que nossa instituição, ao mesmo tempo em que define “fins”, “valores” e “missões”, oferecendo ao incauto um verniz de compromisso social sem convicção e que me cheira, às vezes, como um deboche ao “humanismo”, esses mesmos “fins e valores” (universidade crítica, democrática, pública, de qualidade socialmente referenciada e outros qualificativos de efeito mais retórico que, efetivo. Verdadeiro, para usar a expressão latina, “captatio benevolenciae”), no fundo, tais “fins e valores” são incompatíveis com o escopo geral e profundo onde se assenta as crenças e convicções de boa parte de seus agentes. Não se trata de uma universidade “maquiavélica” (o termo é inadequado, na medida em que Maquiavel nunca foi maquiavélico!), em que os fins justificariam os meios. O problema é mais grave, os meios substituem os fins e aqueles fins de aparência ética elevada são formulados apenas para esconder os meios! De qualquer forma, é sobre a dominação hegemônica da “técnica” e orientada por exigências mercadológicas que está sendo reconstruída a instituição universitária. É por isto que, talvez, aquela velha noção de ‘razão instrumental’ aqui não funcione mais: não se trata de adequar os meios aos fins – dispensando a avaliação moral destes fins tecnicamente alcançáveis: sabe-se, de antemão, que aqueles fins são irrelevantes, pronunciados e anunciados apenas como uma espécie de concessão retórica, mas aqueles agentes estão conscientes de que “crítica”, “democracia” ou “público” não farão mais parte do léxico deste mundo novo que a universidade ajudará a nascer.

Isto pode parecer “conservador”, na medida em que resistir ao “avanço” ou ao “progresso” técnico seria uma atitude reacionária, daquelas que evitam o caminhar da humanidade para futuros radiosos e, afinal, inevitáveis. Aceito, sem grande constrangimento, a acusação de “conservador”, desde que me informem antes em nome de qual “progressivismo” eu estou sendo acusado!

Já estamos, para início de conversa, num campo onde o escopo moral que porventura tenha nos orientado até aqui, aquele fundado numa determinada noção de dever, de desinteresse, de universalidade, de cuidado com o outro, perde seu efeito normativo e entram em cenas valores performáticos e estratégicos, voltados para o sucesso e os resultados em que, entre outras, os homens também são apenas meios (na verdade, “recursos”: recursos humanos!), ignorando os fins que não são mais determinados por nós mesmos (concepção antropológica), mas, pela própria técnica. É o próprio artefato técnico que, doravante, determinará e criará o ambiente em que se darão nossas relações com os outros, com nós mesmos e com o meio em que vivemos. A questão, pois, é simples de ser formulada: como é possível conciliar competitividade, performance, ranqueamento, empreendedorismo e resultados mensuráveis com “universidade solidária, consciente, crítica, democrática, pública e socialmente comprometida”? Receio que estejamos diante da quadratura do círculo! Ou, para não perder o humor, do casamento do pote de ferro com a panela de barro: na hora H, a competitividade bate e a solidariedade, coitada, apanha!